16 nov 2022 Fonte: Revista da Plataforma Portuguesa das ONGD Temas: Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global

Editorial
Por: Grupo de Trabalho de Educação para o Desenvolvimento e a Cidadania Global da Plataforma Portuguesa das ONGD
Dizermos hoje que o mundo é mais complexo, volátil, ambíguo e incerto, pode ser encarado como um falso pressuposto por muitos e muitas que se têm preocupado com o estado do mundo ao longo das últimas décadas. Na verdade, se retrocedermos 50 anos e analisarmos os desafios do desenvolvimento e do futuro que se impunham na altura, possivelmente encontraremos angústias e preocupações globais semelhantes às dos dias de hoje, mas a questão sobre a qual devemos refletir é se as respostas, e mesmo as perguntas, são as mesmas. A preocupação com a mudança sistémica e de transformação social para a Justiça Global mantém-se, ainda que a expressão dos desafios possa ser mais evidente e mais urgente. A principal diferença reside precisamente na forma como são encarados os desafios. Primeiramente, porque o conhecimento e a informação que existem atualmente são mais abrangentes e acessíveis. Segundo, porque as pessoas, por esse motivo, dispõem de mecanismos que lhes permitiriam ser mais conhecedoras e informadas, mais exigentes, mais interligadas, mais globalizadas. Então, se assim é, porque nos deparamos com o mesmo desafio de transformação sistémica que se colocava no passado? O que tem falhado consecutivamente para que tal tivesse acontecido?
Certamente que não é fácil operar para a transformação num contexto de constante mudança, e nem mesmo as melhores ferramentas de previsibilidade podem ajudar-nos a compreender o que acontecerá amanhã. Reconhecemos hoje que o mundo se encontra em colapso ambiental, que o crescimento económico infinito é uma impossibilidade, que as desigualdades nas suas várias dimensões aumentaram, e que dependemos demasiado de megatendências para ter sucesso numa ação coletiva, organizada e globalmente impactante.
Podemos questionar se os sistemas educativos que deveriam contribuir para informar e capacitar os e as jovens para agir de uma forma globalmente consciente, cívica e responsável, foram eficientes e eficazes na criação de gerações capazes de atuar sobre o cenário global e sobre a complexidade. Ou se é dada suficiente importância a uma educação que seja transformadora, radical, sistémica, interseccional, uma educação para o desenvolvimento e para a cidadania global.
Pretendemos com esta revista colocar algumas destas questões difíceis, refletir sobre respostas não lineares, procurando soluções que não sejam padronizadas. O nosso propósito é o de criticamente olhar para o papel da Educação para o Desenvolvimento a Cidadania Global (EDCG) como uma abordagem desconstrutiva, crítica e capaz de nos fazer ter a coragem de ir mais além.
Para tal contamos com o contributo de várias pessoas envolvidas nestas reflexões, que nos ajudam a problematizar, não apenas o contexto económico, político, social, ambiental, mas também o trabalho que, como sociedade civil, desenvolvemos, e que nos recordam que o questionamento aprofundado sobre a causa dos problemas deve ser constante e abordado de uma forma radical.
Precisamos não apenas de reconhecer as crises existentes e como é que as mesmas promovem as desigualdades que procuramos extinguir, mas também de entender as limitações existentes impostas pelos desafios atuais, como as alterações climáticas, os conflitos armados, a subordinação nas relações de poder, as quais por exemplo colocam as mulheres e as raparigas em permanente vulnerabilidade, o aumento da descrença coletiva nos sistemas democráticos e nas políticas públicas.
Algumas reflexões trazidas pelos/as nossos/as convidados/as apresentam-nos pistas e orientações futuras sobre a importância da desconstrução das narrativas, dando voz a quem importa ouvir, e procurando resistir à tendência da normatização; relembram-nos da importância de aprendermos a viver na pluralidade que carateriza as nossas sociedades e de questionar os paradigmas que são impostos; da importância da compreensão dos fenómenos e de um posicionamento informado e responsável; e demonstram-nos que a abordagem da EDCG tem um contributo fundamental para a interpretação do mundo em que vivemos e para a construção de um mundo com que sonhamos.