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porAlexandre Abreu
fonteGT ED
a 25 SET 2013

Em tempos de crise, um retrato pouco animador

Os resultados relativos a Portugal no Eurobarómetro especial sobre as atitudes dos europeus em relação à ajuda ao desenvolvimento (Junho de 2012) não podem ser considerados animadores: entre os 27 países da União Europeia, Portugal encontra-se sistematicamente na metade inferior da tabela, quando não mesmo nos últimos lugares, no que se refere a aspectos como a avaliação da importância da ajuda ao desenvolvimento, o nível de informação relativamente à APD ou a disponibilidade manifestada para contribuir a título individual.

Por exemplo, Portugal é o país da UE-27 no qual a percentagem dos respondentes que consideram a ajuda ao desenvolvimento “muito importante” é mais reduzida (apenas 17%, contra uma média europeia de 37%), ainda que a soma dos que a consideram “importante” ou “muito importante” destoe menos da média europeia (78% contra 85%). A auto-avaliação do nível de conhecimento em relação à afectação da APD é também substancialmente inferior à média: 61% dos respondentes portugueses afirma “nada” saber sobre “para onde vai” a ajuda ao desenvolvimento promovida pelo seu próprio país, face a uma média europeia de 44%. Outro aspecto em que Portugal surge no último lugar consiste na disponibilidade para contribuir individualmente, pagando mais por produtos oriundos de países em desenvolvimento: apenas 12% dos respondentes portugueses afirmaram estar disponíveis para fazê-lo – a grande distância da média europeia (44%), mas também atrás de países bastante mais pobres, como a Bulgária (16%) ou a Roménia (21%), ou de países igualmente sujeitos a intervenção externa no contexto da crise actual, como a Grécia (33%) ou a Irlanda (35%).

Estes resultados não constituem uma completa surpresa: nas rondas anteriores do Eurobarómetro dedicadas a esta temática, Portugal surge habitualmente na metade inferior da tabela no que se refere aos níveis de informação e sensibilização da população. Para além disso, a generalidade dos resultados deste Eurobarómetro revelam uma relação consistente entre o padrão de respostas e duas outras variáveis: por um lado, em termos internacionais, o nível médio de rendimento dos países em causa (os países mais ricos demonstram em geral maior conhecimento e sensibilização); por outro lado, em termos interpessoais, o nível de escolaridade dos respondentes (à escala europeia, os indivíduos mais escolarizados apresentam tendencialmente maior sensibilização, disponibilidade e conhecimento em relação a esta matéria). Ora, em vista disto mesmo, não é inesperado que Portugal – cujos níveis médios de rendimento e escolaridade se encontram abaixo da média europeia – apresente resultados também eles inferiores à média.

Mais preocupante, porém, é o assinalável retrocesso registado a vários níveis entre a ronda anterior deste Eurobarómetro especial (Setembro de 2011) e esta mais recente (Junho de 2012). Dois resultados são especialmente significativos: em menos de um ano, a percentagem dos que consideram a ajuda ao desenvolvimento “importante” ou “muito importante” diminuiu dez pontos percentuais (de 88% para 78%), enquanto a percentagem dos que se afirmaram disponíveis para contribuir pagando mais por produtos oriundos de países em desenvolvimento registou um decréscimo semelhante (de 21% para 12%). Estes sintomas de degradação da sensibilização e disponibilidade face à temática da ajuda ao desenvolvimento não podem ser dissociados da degradação da própria situação económica e social em Portugal: a crise afecta não só a disponibilidade individual para contribuir e a percepção de quais devem ser as prioridades da despesa pública, como também os próprios níveis de solidariedade e confiança interpessoal. Contudo, a actual crise portuguesa não explica tudo – já que a Grécia, por exemplo, apresenta resultados sistematicamente mais animadores.

Na ausência de estudos mais aprofundados, podemos apenas especular em relação aos determinantes destes resultados. A grave crise portuguesa e os baixos níveis de escolaridade constituem seguramente uma parte fundamental da explicação, mas é também possível avançar como hipótese que as elevadas taxas de crescimento económico de alguns dos principais beneficiários tradicionais da APD portuguesa, como Angola ou Moçambique (apesar dos enormes carências que continuam a registar em termos de desenvolvimento humano), e a sua recente emergência como destinos da emigração portuguesa, podem estar a contribuir para a consolidação de uma percepção distorcida da situação social e económica nestes países, e, por extensão, nos países em desenvolvimento como um todo. Em todo o caso, e independentemente de tais especulações, estes resultados apontam inequivocamente para a necessidade de reforçar a educação para o desenvolvimento, de preferência através da aposta em agentes multiplicadores tais como os professores e os jornalistas – a bem da promoção de uma sociedade portuguesa mais informada, cosmopolita e solidária.

Alexandre Abreu, CEsA, ISEG, Univ Tecn Lisboa

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