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porVanessa Furtado
fonteFEC
a 06 MAR 2013

Pensar, comer, preservar. Diga não ao desperdício.

Com o tema “Pensar. Comer. Preservar. Diga não ao desperdício” (www.thinkeatsave.org), a campanha global lançada recentemente pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) é especialmente dirigida aos consumidores, comerciantes e aos diversos atores das indústrias alimentar e hoteleira.

A iniciativa resulta da Cimeira Rio+20, a conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (CNUDS), realizada entre os dias 13 e 22 de junho de 2012, onde diversos Chefes de Estado aprovaram o desenvolvimento de iniciativas para promover a produção e o consumo sustentáveis.

Desperdício versus Fome

“Num mundo com uma população de 7 bilhões de pessoas, que deve chegar a 9 bilhões até 2050, o desperdício de alimento não faz sentido, seja do ponto de vista económico, ambiental ou ético”, afirma o Diretor Executivo do PNUMA, Achim Steiner, no comunicado de imprensa de lançamento da campanha. “Além da perda de produção, são desperdiçados também recursos como água, terras cultiváveis, insumos agrícolas e tempo de trabalho – sem contar os gases de efeito estufa gerados pela comida em decomposição e pelo transporte dos alimentos. Para termos uma vida verdadeiramente sustentável, precisamos de transformar a maneira como produzimos os nossos alimentos”, pode ler-se no comunicado.

“Nas regiões industrializadas, quase metade da comida rejeitada, cerca de 300 toneladas por ano, ainda está própria para o consumo. Essa quantidade é equivalente a toda a produção de alimentos da África Subsaariana e suficiente para alimentar 870 milhões de pessoas”, informa, também no comunicado de imprensa, o Diretor Geral da FAO, José Graziano da Silva. “Se as perdas durante a colheita, estocagem e transporte de alimentos forem reduzidas, e se fizermos alterações profundas na maneira como as pessoas compram comida, poderemos ter um mundo mais saudável e sem pessoas com fome”, completa.

O Ambiente em perigo

Para além do flagelo da fome, o modelo atual de produção de alimentos é preocupante, uma vez que causa implicações negativas profundas no meio ambiente, como mostram os dados a seguir, disponibilizados pela PNUMA:

- Mais de 20% das terras cultiváveis, 30% das florestas e 10% dos pastos no mundo estão degradados;
- Pelo menos 70% da água consumida no mundo é utilizada pela agricultura;
- A produção de alimentos consome, globalmente, quase 30% da energia disponível para usuários finais;
- A agricultura contribui com mais de 30% das emissões globais de gases de efeito estufa;
- Por conta da pesca descontrolada, 30% das áreas pesqueiras são consideradas esgotadas.

“Não há um segmento mais emblemático para se atuar por um mundo mais sustentável e eco-eficiente. E também não há outra causa comum que possa unir países dos hemisférios Norte e Sul, consumidores e produtores”, refere Achim Steiner.

De acordo com a FAO, 95% da perda de alimentos nos países em desenvolvimento ocorre nos estágios iniciais da produção, principalmente por conta das limitações financeiras e técnicas. Dificuldades de armazenamento, infraestrutura e transporte também contribuem para esta perda.

Já nos países desenvolvidos, o desperdício é mais significativo no fim da cadeia de produção. Nos mercados e pontos de venda, grandes quantidades de comida vão para o lixo por estarem fora dos padrões de aparência devido a práticas ineficientes e pela termo das datas consideradas adequadas para consumo. Por parte dos consumidores, o desperdício verifica-se na adquisição de mais do que pode ser consumido e no preparo de grandes quantidades de comida.

Os números assustadores do desperdício

Na Europa, América do Norte e Oceânia o desperdício per capita de alimento varia de 95Kg a 115Kg por ano, enquanto na África Subsaariana e Sudeste Asiático são deitados fora entre 6 e 11Kg anualmente. De acordo com a WRAP (ONG britânica), uma família britânica poderia economizar 680 libras por ano (1.090 dólares) combatendo as perdas e o desperdício. Já a indústria hoteleira do Reino Unido, poderia poupar 724 milhões de libras (1.2 bilião de dólares) adotando a mesma estratégia.

Para que a campanha atinja todo o seu potencial, é fundamental que diferentes públicos de interesse estejam envolvidos – famílias, supermercados, cadeias hoteleiras, escolas, clubes, CEOs e líderes nacionais e mundiais.

O site da campanha oferece dicas simples, bem como uma plataforma para troca de informações, incentivando uma cultura global de consumo sustentável.

Dicas para os consumidores

Compra inteligente: planeie quais ingredientes a usar nas suas refeições, faça listas, compre diretamente aos produtores, evite comprar por impulso e não caia em estratégias para adquirir mais do que o necessário.
- Frutas em formatos “divertidos”: muitos vegetais são deitados fora nos supermercados simplesmente porque o seu formato ou cores não estão “adequados”. Ao comprar esses alimentos em feiras livres e outros pontos de venda alternativos às grandes superfícies, está a adquirir comida que poderia ser deitada fora.
- Compreenda as datas de validade: a frase “consumir preferencialmente antes de” não significa que o produto já não pode ser consumido. Avalie bem antes de o deitar fora.
- Sem relíquias no frigorífico: Sites como o www.lovefoodhatewaste.com, do WRAP, ensinam a fazer receitas criativas para utilizar tudo o que comprou, mesmo o que está esquecido no frigorífico.
- Outras ações sugeridas: congele os alimentos, peça doses mais pequenas nos restaurantes, não desperdice sobras de refeições anteriores (desde que estejam em condições de consumo) e doe a bancos de alimentos, abrigos e outras instituições sem fins lucrativos.

Dicas para comerciantes e indústria hoteleira

- Os comerciantes podem oferecer descontos para produtos próximos do termo da data de validade, montar displays inteligentes e que evitem o desperdício, doar o excedente de alimentos.
- Restaurantes, bares e hotéis podem repensar as suas opções no menu e incluir doses mais pequenas, criar programas de consciencialização para os funcionários e outras medidas.
- Supermercados, hotéis, restaurantes e administração pública podem usar o site para medir quanta comida é desperdiçada no dia-a-dia e estabelecer metas de redução.

O aumento brutal do preço dois alimentos

O mais recente relatório divulgado no final de 2012 pela FAO revela que a elevação no preço dos alimentos chegou a níveis críticos, ou melhor, desanimadores, principalmente para os países pobres que precisam de importar alimentos para dar o que comer às suas populações.

Segundo manifestam os dados da FAO, no último ano, os preços do trigo registraram um auemnto estratosférico entre 60% e 80%. O milho, um aumento de 40%. Uma lutuosa combinação entre aquecimento global e produção de energia a qualquer custo podem estar entre os principais fatores causadores destes aumentos. Afinal, as quebras nas colheitas dos dois gigantes da produção de cereais, Estados Unidos e Rússia, ocorreram em virtude dos efeitos de secas prolongadas. Nunca é demais lembrar que a alimentação à base de cereais, como trigo, milho e arroz, representam a base da dieta de parte considerável da humanidade, especialmente nos países em vias de desenvolvimento.

Mesmo assim, o preço desses alimentos tem estado em constante subida, pois para além das populações, esses cereais alimentam animais e veículos abastecidos por  biocombustíveis.

O relatório afirma que 22 países já enfrentam uma  crise prolongada com altos índices de fome, mesmo antes deste forte aumento. Portanto, além do agravamento da situação desses países que já enfrentam uma grave crise alimentar, deve-se esperar que novos países venham a juntar-se ao grupo dos que passam fome.

O próprio Banco Mundial, na figura de seu presidente Robert Zoellick, também manifestou preocupação com o aumento da fome do mundo. Segundo ele, “o aumento dos preços agrícolas trará enormes consequências para os países em desenvolvimento.”

Estas questões, relacionadas com a Segurança Alimentar, têm sido objeto de ações de Advocacia por parte da FEC e da CIDSE – rede de 16 ONG católicas para o Desenvolvimento da Europa e América do Norte.

Pela Segurança Alimentar!

A FEC e a CIDSE,  acreditam que a responsabilização mútua, a subsidiariedade e a transparência são princípios centrais para a construção e manutenção de uma verdadeira parceria para o desenvolvimento. Neste quadro de referência, o apelo aos líderes políticos é no sentido de que assumam que:

- O Direito à Alimentação deve ser incorporado como uma orientação para a elaboração de políticas e a sua implementação deve ter uma vigilância adequada.
- Para promover a segurança alimentar nos países em desenvolvimento, as políticas agrícolas e comerciais dos países desenvolvidos devem ser reformadas. Isso significa acabar com todos os subsídios à exportação, diretos e indiretos, e garantir que os governos dos países em desenvolvimento tenham espaço próprio para apoiar a subsistência local e promover o desenvolvimento. Salvaguardas que garantam um comércio e uma política agrícola que defenda os direitos humanos são uma importante ferramenta política.
- As políticas de agricultura, comércio, ambiente e desenvolvimento dos países desenvolvidos devem promover a biodiversidade, os sistemas agrícolas ecológicos e a agricultura socialmente justa, tanto nos seus territórios, como no estrangeiro.
- Os investimentos na agricultura e desenvolvimento rural nos países em desenvolvimento devem apoiar sistemas resilientes de agricultura ecológica de pequena escala, pois têm melhor potencial para garantir o acesso dos produtores pobres e dos consumidores a alimentos adequados a preços acessíveis, proporcionando assim um meio digno de subsistência, além de contribuir para reduzir a problemática dependência da importação alimentar, em muitos destes países.
- Os governos nacionais e a comunidade internacional devem tomar todas as medidas necessárias para impedir a posse da terra que está ligada aos modelos em vigor, orientados para a exportação e para a agricultura industrial, e assegurar os direitos à terra das pessoas vulneráveis.
- Os preços mundiais dos alimentos devem ser estabilizados e a especulação sobre os stocks de alimentos deve ser combatida.
- Uma governação alimentar global eficaz, coerente e inclusiva - com especial atenção para as pessoas que vivem a insegurança alimentar - deve ser estabelecida, com o seu núcleo assente no Comité de Segurança Alimentar das Nações Unidas.
- Os doadores devem comprometer-se a, pelo menos, igualar as suas dotações em Ajuda Pública ao Desenvolvimento (APD), sendo que no compromisso de Maputo, de 2003, os países africanos decidiram dedicar 10% dos recursos dos seus orçamentos anuais para a agricultura e desenvolvimento rural, nos cinco anos seguintes.

(excerto retirado do policy paper “Recomendações FEC/CIDSE para a cimeira de avaliação dos ODM, 2010”)

(artigo escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico)

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