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porNélia Ribeiro
fontePlataforma
a 30 OUT 2012

Plataforma promove tertúlia sobre "O Desenvolvimento e os Media em Portugal"

No passado dia 24 de Outubro de 2012, data em que se assinalou o Dia Internacional da Informação sobre Desenvolvimento, a Plataforma Portuguesa das ONGD promoveu a tertúlia “O Desenvolvimento e os Media em Portugal”.

Esta tertúlia teve o o objectivo de estimular o debate sobre qual o espaço do Desenvolvimento na agenda dos órgãos de comunicação social em Portugal, tendo juntado cerca de 40 pessoas, entre jornalistas, ONGD, jovens estudantes e demais interessados.
 
A tertúlia contou com a presença de Artur Cassiano, editor executivo adjunto no Diário de Notícias, Fátima Proença, Presidente da ACEP – Associação para a Cooperação Entre os Povos, Paula Borges, jornalista da RDP África e responsável pelo programa “Objectivos do Milénio”, e Sofia Branco, jornalista da Agência Lusa. Adelino Gomes, professor e jornalista, assumiu a moderação do debate, que teve como ponto de partida o documentário “Triângulos Imperfeitos” sobre o tema Media e Desenvolvimento, realizado pelo jornalista Paulo Nuno Vicente e produzido pela ACEP, em 2010. 

 

Plataforma Portuguesa das ONGD/ 2012 


Para iniciar o debate, Adelino Gomes indagou os jornalistas na mesa sobre o que iriam eles fazer no dia seguinte, em cada uma das suas redacções, numa altura em que se atravessa uma crise generalizada nos media, não só em Portugal, mas um pouco por toda a Europa.
 
Sofia Branco começou por referir que o jornalismo é acima de tudo um compromisso para com quem lê, ouve ou vê e que, como tal, um jornalista deve comprometer-se a reflectir a realidade da forma mais plural e diversa possível, assumindo-se, por isso, como um “porta-vozes” e não apenas como um porta-voz. Na actual conjuntura, esta questão da pluralidade e diversidade está, de acordo com a jornalista da Agência Lusa, em causa, fazendo com que a democracia fique, também ela, ameaçada.
 
Para Artur Cassiano, do DN, vivemos actualmente num estado de “embriaguez colectiva”, em que os jornais, a TV ou a rádio não dão mais do que testemunhos, sendo raros os temas aprofundados nas matérias publicadas. Para o jornalista, o tempo para pensar reduziu-se de uma forma drástica, e as redes sociais são exemplo claro de como começámos a ver o mundo pelos olhos de outras pessoas. Perdeu-se também, segundo ele, a dimensão social dos acontecimentos, estando o lado social da informação reduzido às manifestações.
 
Paula Borges, por seu turno, deu particular destaque ao espaço conferido pela RDP África às questões relacionadas com os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio ou o trabalho das ONG, visto esta ser também a missão da Rádio. Ainda assim, apesar de haver espaço na agenda para programas sobre saúde, cooperação, desenvolvimento, entre outros, Paula Borges reconhece que talvez fosse possível ir mais além. 
  
Visto ser a única representante das ONG, Adelino Gomes reservou uma pergunta especial a Fátima Proença: “o que estão os jornalistas a fazer de mal” para que as questões do desenvolvimento não apareçam nas notícias? Para a presidente da ACEP, o jornalismo é escrever com tempo, mas o jornalista actualmente acaba por ser devorado pelo ritmo voraz das redacções. Além disso, há também um “jornalismo preguiçoso”, pois para poderem informar os jornalistas têm de conhecer e isso requer tempo e dedicação. Porém, adverte, o problema não são só os jornalistas, todo o mundo mudou. Para Fátima Proença, a diluição do código deontológico dos jornalistas é também um problema com que nos deparamos hoje em dia, visto que parece ter-se tornado senso comum que toda a gente é capaz de fazer jornalismo, banalizando-se a ideia de informação como produto de consumo e deturpando-se a de que o jornalismo deveria ter sempre o Outro como preocupação.
    
Questionados sobre como é que se consegue criar espaço nas agendas das redacções para as temáticas do desenvolvimento, os convidados foram unânimes ao dizer que a temática do desenvolvimento não é atractiva para as redacções, que a estratégia de enviar e-mails sucessivos para os jornalistas não funciona e que muitos jornalistas não só não conhecem as ONG como também não estão formados para questões essenciais, como a cidadania e a democracia.
 
Dando como exemplo o desconhecimento que ele e muitos dos seus colegas de redacção têm de grande parte das ONG que constam da lista de 67 associadas da Plataforma, Artur Cassiano referiu que é muito importante que as ONG vão desenvolvendo um trabalho de substância ao longo do tempo, pois só assim é possível elas irem ganhando credibilidade e, consequentemente, espaço mediático. Aquelas que não o fizerem estão, de acordo com o jornalista do DN,” condenadas a desaparecer”.
 
Para Sofia Branco, as ONG têm muita responsabilidade na comunicação que fazem, pelo que relembrou que cabe também às organizações darem a conhecer-se bem como ao trabalho que desenvolvem, no sentido de levarem os próprios jornalistas a olharem para estas questões de uma outra maneira. Não obstante, a jornalista da Lusa, reconhecendo que o desenvolvimento não é um tema vendável numa redacção, sublinhou que os jornalistas, com a margem de negociação que lhes sobra, devem procurar dentro das suas redacções os interlocutores-chave, ou seja, aqueles que possam influenciar as chefias, convencendo-as da importância destes assuntos.
 
Em jeito de conclusão e de repto, Adelino Gomes deu destaque à necessidade de cada um dos três lados do triângulo – jornalistas, ONG e audiências – assumir as suas responsabilidades. Em particular, os jornalistas não devem diminuir a enorme responsabilidade que têm e devem ser capazes de agir com inteligência e apostar na formação para estas questões. No que às ONG diz respeito, é seu trabalho levar o jornalismo a percorrer caminhos que ele, por si só, não consegue. 
     

 

 

 

 

 

 

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