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porAna Cristina Pereira
fontePúblico
a 28 OUT 2012

Fome continua alarmante em 20 países

Índice Global da Fome 2012 mostra que o problema permanece severo na África subsariana e no Sul da Ásia. Timor-Leste, Angola e Moçambique entre os mais problemáticos.

Há menos gente com fome no planeta, mas o problema permanece "sério", a avaliar pelo Índice Global da Fome 2012, sobretudo na África subsariana e no Sul da Ásia. Vinte países mantêm-se numa situação alarmante ou extremamente alarmante - em três deles fala-se português.
 
O índice apareceu para "criar consciência e compreensão" sobre a fome no mundo. É uma iniciativa do International Food Policy Research Institute, americano, em parceria com a organização não governamental alemã Welthungerhilfe, aos quais se juntou a irlandesa Concern Worldwide. A organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação chama fome a um consumo diário inferior a 1800 calorias, o mínimo de que a maior parte necessita "para ter uma vida produtiva e saudável". Os autores do Índice Global da Fome, todavia, entendem que a subnutrição não se esgota na contagem de calorias. Para a determinar, combinam-se três indicadores: a proporção de subnutridos residentes; a percentagem de crianças com menos de cinco anos com peso inferior ao apropriado; a taxa de mortalidade nessa faixa etária, reflexo de ambientes insalubres e de ingestão insuficiente de alimentos.
 
Burundi, Eritreia e Haiti têm as maiores percentagens de residentes subnutridos - mais de 50% da população. Bangladesh, Índia, Timor-Leste têm as maiores de subnutrição infantil - mais de 40 % da população com menos de cinco anos. Burkina Faso, Chade, República Democrática do Congo, Mali, Serra Leoa e Somália têm as maiores taxas de mortalidade nessa faixa etária - entre 17 e 18%.
 
Na lista constam 120 países nos quais a fome é relevante. Ficam de fora o Afeganistão, o Iraque, a Papuásia-Nova Guiné, a Somália e a República Democrática do Congo, para os quais não existem todos os dados necessários. E os países desenvolvidos, já que aí a prevalência de fome é incomparavelmente baixa.
 
Há boas notícias, apesar de tudo. A fome tem vindo a recuar. Recuou "mais depressa" entre 1990 e 1996. A partir daí, tem recuado mais devagar.
 
"Comparando com a contagem de 1990, o índice de 2012 é 16% mais baixo na África subsariana, 26% no Sul da Ásia e 35% no Próximo Oriente e no Norte de África", lê-se no relatório, acessível em http://www.ifpri.org. "O progresso no Sudoeste Asiático, na América Latina e nas Caraíbas foi particularmente notável, com as contagens a descerem 46 e 44% respectivamente (embora já fossem baixos nesta última região). Na Europa de Leste e nos países independentes da Commonwealth, o índice era 46% mais baixo do que em 1996."
 
Entre 1990 e 2012, 15 países desceram mais de 50% na escala de zero (sem fome) a cem (fome generalizada). Outros 44 baixaram entre 25 e 49,9%. No topo da lista da fome está o Burundi, um pequeno país situado no interior dos Grandes Lagos africanos: 37,1 pontos. "Com a transição para a paz e para a estabilidade económica que começou em 2003, começou uma lenta recuperação de décadas de declínio económico", observam os autores do relatório. O número de subnutridos, porém, continua a aumentar, embora menos.
 
O continente africano concentra o grosso dos 20 países que encaixam na categoria "alarmante" ou "extremamente alarmante" : além do Burundi, a Eritreia, a Etiópia, o Chade, a República Centro-Africana, os Camarões, a Serra Leoa, o Iémen, Angola, Zâmbia, Moçambique, Madagáscar , Níger, Djibuti e Sudão.
 
Só um dos países da África subsariana está entre os que tiveram melhor desempenho: o Gana. Na Ásia, os autores destacam um "progresso notável da Turquia", muito associado à redução da subnutrição infantil.
 
Na verdade, quase todos os países que pioraram o Índice Global da Fome entre 1990 e 2012 localizam-se na África subsariana - a excepção é a Coreia do Norte. As maiores evoluções negativas registaram-se no Burundi, nos Camarões e na Costa do Marfim.
 
A mais recente crise no Corno de África ainda não se reflecte nesta contagem. Serve, ainda assim, como prova de fragilidade permanente. 
  
O relatório destaca a região de Sahel, situada entre o deserto do Sara e as terras férteis a sul, formando um corredor que vai do Atlântico ao mar Vermelho, que no ano passado voltou a saltar para as páginas dos jornais. "Estimou-se que cerca de 18 milhões de pessoas estivessem [então] em risco de morrer à fome, principalmente por causa das más colheitas em diversos países. O alerta de crise iminente foi desencadeado por uma grande quebra de produção em 2011." O recuo de 26% na produção de 2011, advertem, pode ser enganoso. Em 2010, houve uma produção recorde. Só que os valores de 2011 nem são assim tão diferentes dos de anos anteriores. E a produção interna é apenas uma das fontes de abastecimento. Há também as importações e a ajuda alimentar.
 
O que provoca, então, uma tão grave crise como aquela? "A grande questão pode não ser a fome súbita, mas persistente, a vulnerabilidade crónica de certos segmentos da população que não está a ser atacada de forma sistemática", arriscam. "Actuar em modo de crise, como se está a fazer agora, leva a intervenções curtas, caras, enquanto o problema persiste. Esta abordagem pode ser eficaz para angariar fundos, mas pode inviabilizar as políticas necessárias para construir resiliência entre os grupos mais vulneráveis."
 
É positiva a evolução dos dois países de língua oficial portuguesa que figuram no mapa africano da fome. Moçambique está a recuperar desde 1992, embora a pobreza não se reduza ao mesmo ritmo a que a economia cresce. Na tabela da fome, estava em 35,5 em 1990, está em 23,3. Angola, por sua vez, passou de 41,5 para 24,1.
 
Fora de África, o pior país é o Haiti. O Índice caiu um quarto entre 1990 e 2001. Só que essa tendência inverteu-se. O terramoto de Janeiro de 2010 fez o resto. Cerca de três mil pessoas terão morrido. Mais de um milhão terá perdido a casa. Infra-estruturas fundamentais foram destruídas. De acordo com o relatório, de 2009 a 2010 a mortalidade infantil mais do que duplicou. "A falta de acesso a comida, abrigo, água potável e serviços de saúde aumentou o risco de subnutrição infantil", indica. "Dois anos após o desastre, mais de meio milhão de haitianos ainda vivem em tendas em centenas de campos."
 
A Índia também merece uma atenção especial. A sua economia tem crescido muito nos últimos anos. O país está, todavia, "largamente longe" de melhorar a sua posição no Índice Global da Fome. "Depois de um pequeno aumento entre 1996 e 2001, caiu ligeiramente, e no último regressa ao nível de 1996", aponta o documento, lembrando que esta "estagnação" aconteceu quando o produto nacional bruto per capita quase duplicou. O subcontinente obteve o penúltimo lugar na tabela da subnutrição infantil. Num ranking de 129 países, só Timor-Leste teve pior classificação. O pequeno país de língua oficial portuguesa piorou mesmo desde a independência: passou de 26,1 em 2001 para 27,3 em 2012.
 
Os autores pegam noutros dois exemplos do Sul da Ásia: Bangladesh e Sri Lanka. Aí, os índices de fome desceram de modo quase proporcional ao aumento do crescimento do rendimento nacional. Merecem realce os níveis de literacia e de esperança média de vida alcançados pelo Sri Lanka, comparativamente a "países com um nível semelhante de desenvolvimento".
 
Posto isto, aos autores do Índice Global parece evidente que "décadas de esforço e retórica" falharam na tarefa de erradicar a fome. Urge, indicam, produzir mais comida com menos recursos. 
 
Público, edição impressa de 28.10.2012

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