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fonteFEC
a 26 OUT 2012

Inquérito global aos pobres é urgente

No meio de tanta auscultação, de tantos painéis liderados por especialistas, de tantas conferências e reuniões ao “mais alto nível”, os beneficiários directos dos ditos objectivos de desenvolvimento globais nunca foram ouvidos.

Desde sempre que foram os países ricos a ditar as necessidades dos países pobres e as estratégias de combate à pobreza provêm de muitas mentes iluminadas que nunca souberam o que é passar fome, o que significa querer aprender e não poder, o que é viver em zonas de conflitos violentos ou não ter água potável. Se é certo que não é necessário ser pobre para saber o que querem os pobres, a verdade é que nunca ninguém se esforçou para lhes dar voz ou de lhes fornecer a possibilidade de serem eles a contribuir para o seu próprio futuro.
 
Até agora. A ONE, a organização sem fins lucrativos cofundada por Bono dos U2 e por outros “pesos-pesados” do mundo empresarial, académico e político, que luta contra a pobreza extrema, particularmente em África, e cujas campanhas de pressão junto dos líderes mundiais têm tido resultados consideráveis, contando já com mais de três milhões de membros, anunciou, em Setembro último, que a sua próxima “campanha de pressão” será, exactamente, centrada nas vozes dos pobres. A ideia é que, aproveitando-se a plataforma “The World We Want”, seja realizado um inquérito massificado aos muitos pobres do planeta, com um conjunto de questões estandardizadas, que deverão ser respondidas globalmente e que cubram tanto os países em desenvolvimento como os desenvolvidos.
 
A ideia surgiu a Ben Leo, diretor de políticas globais da ONE, a propósito da Cimeira Rio+20 e como resposta aos inúmeros milhões de dólares, euros e yens gastos pelas Nações Unidas, pelo Banco Mundial ou pela OCDE, quando se reúnem para tratar “destes assuntos dos pobres”. A proposta de Leo é realmente simples e poderá revelar-se extremamente eficaz. “Se imaginarmos que é possível canalizar uma porção desse dinheiro para sondagens de opinião inovadoras nos países em desenvolvimento, questionando as massas diretamente e não optando por outros ‘representantes’ que falem em seu nome, ficaríamos com uma ideia muito mais fidedigna das verdadeiras necessidades e desejos mais prioritários dos pobres”, afirmou num artigo de opinião.
 
O especialista em desenvolvimento, que já trabalhou com a União Africana, sustenta a sua proposta com dados e iniciativas já existentes, como é o caso do Afrobarometer, que conduz este tipo de inquéritos a um espectro alargado de agregados na África Subsaariana e cujas respostas são, por vezes, surpreendentes. A título de exemplo, as fracas infraestruturas (estradas e eletricidade) constituem a principal preocupação para um em cada cinco agregados auscultados, quando apenas um em 20 elege a saúde como a sua principal prioridade. E, sim, quem poderia imaginar? Desta forma, é neste sentido que a ONE propõe a realização de inquéritos similares como contributo essencial para o debate sobre os “ODM 2.0.”, uma ideia que apesar de parecer óbvia, ainda não está na agenda, mas que, de acordo com a ONE e com outros grupos similares, deverá ser colocada em prática o mais rapidamente possível. A organização ONE já revelou até a forma e a fórmula para se realizar este inquérito.
 
Para demonstrar a sustentação da sua ideia, em conjunto com o tipo de questões que um inquérito desta natureza poderia desvendar, a ONE realizou uma análise extensa sobre inquéritos similares feitos a agregados não só da África Subsaariana, mas também na América Latina e na Ásia Oriental. E se os resultados sublinham a necessidade de um inquérito muito mais abrangente, os mesmos reforçam igualmente a “sabedoria” de incluir os cidadãos “reais” no processo. O relatório já está online e o VER sumariza, as principais conclusões retiradas, leia-as aqui.
 

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