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a 23 FEV 2012

Cooperação e Língua: Conversa de Mudos

É incompreensível e é com perplexidade que se vê o Instituto Camões e o IPAD fundidos, à deriva há oito meses. Sem orientações e em gestão corrente, anda tudo aos papéis.

Manuel Ennes Ferreira
mfereira@iseg.utl.pt 
 
Uma vez mais a estatística falhou. Calculei, em 2007, a sobrevivência média dos presidentes do instituto público encarregado da cooperação portuguesa entre 1994 e 2006 e o resultado foram 180 meses. Mas enganei-me. O presidente que se seguiu e atualmente demissionário, Manuel Correia, está lá há cinco anos e dois meses. Não foram poucas as vezes que utilizei este espaço para pedagogicamente zurzir quando me pareceu oportuno. Isso não invalida reconhecer algum mérito e diferença no seu trabalho. Justiça lhe seja feita. Mas o propósito desta crónica, com esta entrada, é manifestar alguma perplexidade sobre o que se está a passar. O Governo atual tomou posse em junho do ano passado. Em finais de setembro é entregue ao primeiro-ministro um estudo sobre a articulação institucional tendo como ponto central a diplomacia económica. Um mês depois, a 20 de outubro, o Conselho de Ministros aprovou a criação do Conselho Estratégico de Internacionalização da Economia. No início de novembro nomeia um novo presidente da AICEP, isto é, quase cinco meses depois, o que começava a ser preocupante para não dizer escandaloso. Entretanto o Instituto Camões e o IPAD estavam, e estão, em gestão corrente. A 30 de janeiro deste ano, oito meses passados, é publicada a lei orgânica do Camões — Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. e que funde aqueles dois. Sem orientações e em gestão corrente, anda tudo aos papéis. Nada de fundamental e estruturante pode ser decidido. Os programas indicativos de cooperação bilaterais entre Portugal e os países lusófonos estão prontos desde o ano passado e ainda não foram assinados. Os professores que estavam em Timor-leste regressaram. Paulo Portas, que até nem se tem dado mal com o cargo, tem mostrado aptidão e utilizado toda a sua experiência passada a comprar nas feiras do Alentejo e Trás-os-Montes para agora poder vender esses mesmos produtos lá fora... Mas tem um problemazito com o partido da coligação. A ele interessam-lhe os grandes desígnios da política externa e enquadrar neles os interesses económicos nacionais. E como disse atrás, até se tem desembaraçado. Mas, por exemplo, por que razão o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação continua na clandestinidade? Nunca ouvi algo de substancial ou não da sua boca, nunca subiu ao palco e a única vez que o fez foi... no funeral do presidente da Guiné-Bissau Malan Bacai Sanhá, em representação de Portugal (o que também não me pareceu de muito bom-tom e nível). É evidente que ser submarino do outro partido da coligação e do seu amigo também se paga. E Paulo Portas não é ingénuo nem novato, ao contrário do seu secretário de Estado. Por isso, a minha perplexidade é também preocupação. O arrastar de uma solução institucional na cooperação e difusão da língua e cultura portuguesas não é salutar e a coexistência entre os dois parceiros da coligação nesta importante área que é a política externa e a sua articulação com os interesses económicos nacionais e o papel da cooperação ainda podem vir a dar que falar. Pelas piores razões...  
 
Professor do ISEG
 
Fonte: Expresso

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