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a 27 OUT 2017

À Conversa com … Samuel Poos

Samuel Poos | Coordenador do Trade for Development Center (TDC)

Entrevista realizada por Stephane Laurent1, membro da Direcção do CIDAC

Samuel Poos, como coordenador do Trade for Development Center (TDC), pode falar-nos sobre a instituição e as suas áreas de intervenção?
É um programa inserido no seio da Agência Belga de Desenvolvimento, na cooperação técnica belga. Fazemos parte dos poderes públicos e temos um duplo objectivo: promover o comércio justo e durável, na Bélgica e nos países prioritários para a cooperação belga, e melhorar o acesso dos pequenos produtores ao mercado. Desenvolvemos uma série de actividades: o financiamento de projectos implementados directamente pelas organizações de produtores no Sul; desenvolvemos igualmente um programa de coaching em marketing: os coachs profissionais são enviados para formar as cooperativas em marketing estratégico e operacional, para que possam ter melhor acesso ao mercado. Na Bélgica, o TDC conduz uma série de actividades de promoção do comércio justo, quer seja particularmente pela coordenação da Semana do Comércio Justo, quer pela dinamização de um grupo inter-parlamentar no quadro do qual o TDC intervém regularmente junto dos parlamentares para fomentar o comércio justo ao nível legislativo.

Então desenvolve um trabalho directo de apoio aos grupos de produtores, um trabalho de consciencialização junto da população em geral, e ainda um trabalho que podemos qualificar de advocacy, de influência política junto das instâncias que têm poder de decisão. Para si, como se articulam estas três dimensões, são três dimensões que se encontram compartimentadas ou que se alimentam umas das outras?
Alimentam-se umas das outras. O facto de conhecermos bem a situação dos produtores nos países do Sul através dos apoios que concedemos, permite-nos orientar corretamente as campanhas de sensibilização e assumir, em certos aspectos, um papel de observação crítica sobre os desenvolvimentos do comércio justo, sobre os desenvolvimentos de certas certificações.

Considera que há uma ligação entre o vosso trabalho de consciencialização junto das populações na Bélgica ou ao nível europeu, e o trabalho de cooperação?
Sim, certamente, estas actividades são complementares. Aproveitemos a temática do ouro justo como exemplo. Financiámos um estudo de viabilidade para perceber se seria interessante desenvolver os standards internacionais ao nível do ouro justo. Seguidamente, apresentámos este estudo à Fair Trade Foundation2  e à Fairtrade International3 que validaram a ideia de que valia a pena desenvolver este trabalho. A seguir reforçámos as capacidades da primeira cooperativa de mineiros artesanais para serem certificados, depois financiámos um estudo de mercado sobre o ouro justo ao nível europeu. Posteriormente, financiámos uma reportagem sobre ouro justo no Perú que foi emitida na televisão na Bélgica, e, finalmente, encontramo-nos neste momento em contacto com 17 joalheiros para os ajudar a comunicar junto dos seus clientes sobre as condições de trabalho dos produtores do Sul e sobre as vantagens fornecidas pelo comércio justo. Assim, a nossa acção estende-se desde o apoio aos produtores à sensibilização dos cidadãos, mas igualmente dos consumidores, dos distribuidores de ouro justo, passando pela realização de estudos de mercado para aumentar o nosso conhecimento.

… os operadores económicos também como alvo do trabalho de sensibilização. O texto «As duas almas do comércio justo»4, escrito há uma década por Angelo Caserta na revista ‘Antipodes’ do ITECO, aborda o problema da mudança no sector do comércio justo no qual os actores de maiores dimensões, os actores históricos, assim como os importadores, fecharam-se em si mesmos e concentram-se nas actividades mais comerciais, abandonando as actividades de sensibilização, consideradas como estando sob a responsabilidade das ONG. A vossa organização constatou este processo?
Sim, com efeito. Esta é orientação da grande distribuição ou dos compradores de produtos do comércio justo que escoam os seus produtos nas grandes cadeias de distribuição, e que colocam a etiqueta Fairtrade ou Max Havelaar nessa óptica. Estes consideram suficiente adquirir os produtos de comércio justo e colocá-los nas suas prateleiras. Consideram que as ONG é que devem realizar o trabalho de criação de novas oportunidades e de desenvolver novos canais de comercialização. Uma vez que esses canais estejam estabelecidos, os actores da grande distribuição poderão aproveitar e integrar os produtos nas suas prateleiras com a sua própria marca. Esta situação cria em si uma certa concorrência entre estes actores, que não realizam um trabalho de advocacy ou um verdadeiro trabalho de cooperação em sentido lato, e as ONG do estilo Lojas do Mundo da Oxfam, que desenvolvem um trabalho mais aprofundado, que importam e distribuem os produtos, apoiam os produtores da melhor forma que conseguem, e realizam um trabalho educativo e de advocacy.

Quando recordamos, por exemplo, a polarização entre, por um lado, um comércio justo que poderíamos qualificá-lo de paliativo porque não questiona o modelo dominante, mas procura atenuar os efeitos da exclusão provocados pelo modelo da economia de mercado geral e, por outro lado, um comércio justo que poderemos denominar de transformador, porque questiona as causas e fontes do problema, considera que existe um certo bom senso na evocação deste modelo?
Sim, certamente, o comércio justo actualmente é multidimensional. A filosofia dos pioneiros encontra-se ainda hoje bem presente. Questiona, através do comércio justo, o modo de funcionamento do comércio internacional, cria uma alternativa; mas outro tipo de comércio justo tenta, direi, simplesmente, mas entre aspas, melhorar marginalmente as condições de vida dos produtores do Sul, sem necessariamente desempenhar um papel transformador, ao nível social.

Considera que no caso belga os actos de consumo baseiam-se numa compreensão profunda das injustiças do comércio internacional, das assimetrias entre o Sul e o Norte ou no seio dos próprios países quando se fala de economias locais ou o nível de sensibilização é superficial? Como caracteriza a evolução da sociedade belga neste posicionamento em termos do comércio justo?
Podemos sintetizar referindo que os consumidores conhecem superficialmente o comércio justo, sabem o que é, que melhora as condições de vida dos produtores do Sul; mas menos de metade da maioria estão realmente preocupados com o comércio justo. Existe uma diferença importante entre a taxa de notoriedade do comércio justo (92% na Bélgica) e o número de produtos comprados. Perto de um terço da população adquire, de tempos a tempos, um produto de comércio justo. Em 2015, as vendas de produtos justos aumentaram em 137 milhões de euros na Bélgica, ou seja 12,15 euros por habitante. Existem formas de melhorar. Devemos também referir que certas pessoas compram produtos de comércio justo sem terem consciência. Em certos supermercados, as bananas justas são colocadas em destaque, ao nível dos olhos, nas prateleiras. Algumas pessoas adquirem-nas sem realmente terem consciência disso…

Sim, são comercializados sem distinção específica…
Sim, porque são bananas bio também...

É sempre mais fácil de vender com o argumento “é bom para a minha saúde” do que com o argumento “é bom para o planeta e é bom para os outros...”
Isso é verdade, é evidente…

Na sua opinião, adquirir produtos do comércio justo é uma forma de cooperação?
É uma forma de solidariedade internacional, de justiça social: pagar os produtos adquiridos a um preço justo, a um preço a que devem ser vendidos se forem tidas em conta as condições sociais de produção e de respeito pelo ambiente. Mas isto já não é necessariamente sempre o caso no comércio justo. Não podemos afirmar que o preço mínimo por certas categorias de produtos é verdadeiramente o preço justo em termos sociais e ambientais. Penso no cacau, em que o preço mínimo garantido pela fileira certificada não possibilita sempre actualmente, de acordo com vários estudos, que os camponeses que cultivam o cacau consigam superar a pobreza. Ter-se-ia que ir muito além disto para que tal pudesse acontecer. É apenas um pouco mais, um pouco melhor.

Pode falar-nos da Semana do Comércio Justo?
Sim, esta campanha de sensibilização existe desde 2002 na Bélgica. O seu objectivo é triplo: atrair a atenção dos media para este tipo de comércio, estimular a sociedade civil a organizar o máximo de iniciativas de sensibilização possíveis, e criar um momento em que todos os actores do comércio justo comuniquem juntos… Em cada ano, cerca de 200 iniciativas são organizadas no nosso país. Depois do ano passado, a campanha foi modificada e foi estabelecido o objectivo de fazer da Bélgica, até 2020, de forma simbólica um pouco à semelhança do que aconteceu no País de Gales, o país do comércio justo. Foram definidos 7 critérios para poder alcançar este objetivo, desde o nível da consciencialização da população, até ao consumo per capita de produtos de comércio justo. Mas queremos igualmente, em colaboração com a campanha Fair Trade Towns, conseguir que pelo menos 51% dos municípios belgas se declarem municípios de comércio justo. E nós trabalhamos também ao nível das províncias…

Numa iniciativa como a da Semana do Comércio Justo colaboram com as organizações da sociedade civil, existe uma colaboração?
Sim, com efeito. As datas são agendadas a nível nacional. O TDC financia uma grande campanha mediática, para fazer “barulho”, e apoia várias iniciativas da sociedade civil através de diferentes oportunidades de candidaturas para desenvolvimento de projectos, às quais podem candidatar-se as associações que não trabalham habitualmente em comércio justo. Estas poderão receber até 4000 euros para desenvolver uma actividade de sensibilização durante o período específico da Semana do Comércio Justo. As ONG clássicas como as Lojas do Mundo da OXFAM ou as suas equivalentes na Flandres, ou ainda a Fair Trade Belgium, desenvolvem as suas próprias actividades durante esta Semana do Comércio Justo. Existe ainda uma certa concorrência entre as diferentes organizações para perceber quais vão ter mais presença nos media. Isso cria uma emulação e, portanto, o consumidor pode ver um máximo de actividades e iniciativas para promover o comércio justo um pouco por toda a Bélgica.

Quando se evoca a cooperação para o desenvolvimento, o nosso sistema de representação imediatamente remete para as relações Norte-Sul. Quando pensamos no comércio justo o mais frequente é associarmos também a uma perspectiva Norte-Sul. No entanto, nos últimos tempos assistimos ao desenvolvimento de um comércio justo “Norte-Norte”. Os actores sociais e os consumidores tomaram consciência dos problemas que enfrentam os nossos produtores. Verifica-se também esta realidade no seio do Trade for Development Center?
Formalmente o TDC não “deve” ocupar-se muito com esta problemática, porque a acção do Ministério da Cooperação para o Desenvolvimento e da sua agência é dirigida para o Sul, mas nós conduzimos mesmo assim um trabalho de sensibilização dos actores para que a ideia de comércio justo seja também adaptada aos agricultores belgas e europeus. De qualquer forma, as Lojas do Mundo da Oxfam ou a pequena federação belga de comércio justo posicionam-se favoravelmente relativamente a esta problemática do comércio justo “Norte-Norte”. No norte do país, este não é ainda o caso.

Na Flandres?
Sim, exactamente. Infelizmente, porque as lojas do mundo são as lojas do mundo, e não unicamente do Sul, então é a mesma abordagem, a mesma.

 

1. Entrevista realizada por Skype no dia 8 de Fevereiro de 2017.
2. Membro britânico da Fair Trade International
3. A organização implementa o principal sistema de certificação no quadro do comércio justo.
4. Antipodes (161-162), Jul-Set. 2003.

 

Entrevista Original.

Tradução e adaptação: Rita Leote
 

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