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porCésar Neto
fonteKozel Fraser
a 30 NOV 2016

Consumo Responsável: O impacto das nossas escolhas no Desenvolvimento Sustentável

Kozel Fraser é coordenadora da Associação de Agricultores das Ilhas Windward (WINFA)* e possui uma vasta experiência na promoção de práticas agrícolas sustentáveis, com foco na adaptação às alterações climáticas e nos direitos dos agricultores, em particular das mulheres.

A Plataforma Portuguesa das ONGD aproveitou a visita de Kozel Fraser a Portugal no início de Novembro, no âmbito do projecto “Fruta Tropical Justa”, e convidou-a para uma conversa sobre produção e consumo responsáveis.


© Gustavo Lopes Pereira/Âmago

PADRÕES DE PRODUÇÃO, DISTRIBUIÇÃO, CONSUMO E A NOVA AGENDA DE DESENVOLVIMENTO

Ao analisarmos os 17 Objectivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), deparamo-nos com o ODS 12: “Produção e Consumo Sustentáveis”, que alerta para a importância dos direitos humanos e ambientais na produção e consumo responsáveis, pelo que este foi o mote para início de conversa.

De acordo com Kozel Fraser,

“a agenda só terá impacto em termos de alteração dos padrões de produção e consumo se reconhecermos que os esforços devem ser feitos em toda a rede de distribuição, e para tal é preciso um trabalho concreto de capacitação, comunicação, consciencialização” (Kozel Fraser).

Defende assim que produção, o consumo, e a sustentabilidade devem andar de mãos dadas para que o ODS 12 seja uma realidade, uma vez que o problema actual está nos processos de produção, pois criamos bens sem ter em conta o desperdício, mas também nos padrões de consumo. É importante a incorporação de novas tecnologias no sistema de produção e mudar os padrões de consumo e, para tal, as cidadãs e os cidadãos devem ser consciencializados para actuar de forma responsável. Actualmente as pessoas compram o que querem, não o que necessitam, e este comportamento tem consequência directa no resto do mundo, na partilha dos bens e, consequentemente, no Desenvolvimento Global, afirma Kozel.

Compreende-se assim que a produção e o consumo responsáveis são um dos caminhos para reduzir a pobreza global e estimular o desenvolvimento na generalidade, até porque, segundo Kozel Fraser, existe água e alimento para toda a gente, o problema é que estão mal distribuídos pois alguns consomem de mais e outros de menos. Urge assim agir de forma responsável e com o foco também no outro para que este ODS seja uma realidade.

A CRISE ECONÓMICA E O CONSUMO RESPONSÁVEL

Kozel Fraser considera que a crise económica e a pobreza são um problema real quando se fala de consumo responsável: como vamos convencer famílias “pobres” a esquecer o critério preço e a terem em conta questões como os direitos dos trabalhadores, a utilização de mão-de-obra infantil e escrava, a cadeia de distribuição, a forma de produção, entre outras variáveis, no momento da compra?

Para Kosel,

“temos de ter em consideração o contexto económico, pois não é fácil convencer as pessoas mais pobres a comprar tendo em conta outras variáveis para além do preço, como por exemplo a sustentabilidade. A resposta está na educação continuada, na consciencialização para a sustentabilidade e de um sistema de produção, distribuição e comercialização justo, e para a importância das nossas escolhas para o presente e para o futuro, pois ao comprarmos um produto mais barato, esta «poupança» pode significar um custo para as gerações futuras” (Kozel Fraser).

Outro problema identificado por Kozel Fraser está relacionado com os rendimentos. Actualmente os rendimentos de muitas/os cidadãs e cidadãos não é suficiente para permitir a compra de produtos produzidos de forma sustentável, este é um problema económico e social que pode prejudicar a concretização da agenda de desenvolvimento 2030.


© Gustavo Lopes Pereira/Âmago

O CAMINHO

Para Kozel Frase, o caminho passa por oferecer bens de forma sustentável, desta forma os consumidores podem fazer as escolhas certas, até porque de acordo com a sua experiência, os consumidores querem comprar bens produzidos e distribuídos de forma justa e sustentável, mas para tal é essencial que se façam ajustes à cadeia de distribuição e que os supermercados e retalhistas aceitem vender produtos com menor taxa de lucro, só assim será possível oferecer produtos sustentáveis aos consumidores sem isto representar um aumento dos preços.

Kozel Frazer enalteceu ainda o papel que a Comunicação pode desempenhar, pois é fundamental para que as cidadãs e cidadãos reconheçam e compreendam o poder que têm para influenciar as decisões ao longo da cadeia de valor, e neste sentido importa aumentar a consciencialização e estimular a mudança de comportamentos. As cidadãs e cidadãos devem perceber que têm um papel directo no Desenvolvimento e reconhecer que as suas escolhas têm impacto e podem até fazer com que os supermercados e os retalhistas mudem as estratégias de actuação.

“Pegando no exemplo da cadeia de distribuição das bananas, vemos que os supermercados e os retalhistas têm um grande poder de influência, nomeadamente ao nível dos preços, promoção dos produtos, etc., contudo quando falamos com os supermercados este afirmam que apenas se adaptam ao que os consumidores e os clientes pretendem, que fornecem os bens que os consumidores, que as cidadãs e os cidadãos procuram” (Kozel Fraser).

Importa então que as pessoas compreendam que podem fazer a mudança, reconheçam o poder das suas escolhas no dia-a-dia.

O FUTURO

“Importa que as cidadãs e os cidadãos tenham em conta o futuro que queremos para os nossos filhos e para os filhos dos nossos filhos quando consumimos” (Kozel Fraser).

A nível político é urgente mudar o paradigma, as políticas devem ter em conta questões como a sustentabilidade, o meio ambiente, bem como outras questões sociais.

E neste sentido, a Sociedade Civil pode e deve influenciar as políticas relacionadas com o Desenvolvimento, deve estar envolvida em todas as questões relacionadas com o Desenvolvimento.

“São as organizações da sociedade civil e os movimentos de cidadãs e cidadãos que podem realmente causar impacto. Se olharmos para questões como as mudanças climáticas, a proteção do ambiente, entre outros assuntos, existem políticas dos governos, mas são as organizações da sociedade civil que contribuem directamente para a implementação destas políticas e medidas no terreno” (Kozel Fraser).

Kozel Frazer termina a conversa referindo que a solução passa por um trabalho em conjunto, em parceria. A resposta aos desafios do Desenvolvimento é uma política conjunta, um movimento de organizações, de cidadãs e cidadãos unidos para mudar o mundo.

 

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* WINFA
A WINFA é uma organização de pequenos produtores locais, que está localizada nas ilhas Windward e que defende uma cadeia de produção e distribuição mais justa e é por esta razão que está envolvida na campanha “Fruta Tropical Justa / Make The Fruit Fair”.
 

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